A lendária Bidica


Por Alberto Giovanetti Filho

Recentemente, estive à procura de um endereço da nossa cidade de Tietê com o nome de José Joaquim. Ao desconhecer onde ficava tal rua, perguntei para os amigos que fazem ponto na esquina da praça Elias Garcia, no Centro. Ali, talvez, a explicação do endereço fosse mais verídica! Após várias indagações, obtive resposta mais clara de uma pessoa idosa: “Deve ser a rua da Bidica!” Logo veio a afirmação de outra: “Sim, este endereço é da rua da Bidica mesmo!”
Com todo respeito ao homenageado José Joaquim, denominado com o nome da rua através de decreto municipal, levantei questionamento intrigante sobre a figura dessa mulher que popularizou o nome da rua ou “Morro de Bidica”. No livro Rua do Commércio, 34- Retrato de uma época, de autoria de Sergio Flavio Biagioni, na página 221, são mencionadas as casas do conhecido “Morro de Bidica”, que liga o largo da Ponte à rua Paraíso.
Bidica, filha de escravos, nasceu em 2 de fevereiro de 1902, época de Carnaval. Seu nome de batismo era Romilda Candelária Diniz. Veio ao mundo pouco mais de uma década depois que culminou a Abolição da Escravatura em 13 de maio de 1888. Período este que registrou-se em nossos livros de história que boa parte dos negros libertos foi abandonada à própria sorte pela falta de reformas que os integrassem socialmente.
Provavelmente, Bidica tenha sofrido na pele todos os descasos, preconceitos, injustiças e dor. Uma chaga que o Brasil carrega até hoje. Mesmo assim, cresceu forte, dotada pelo seu carisma e suas qualidades aos olhos dos cidadãos tieteenses.
Colhi mais detalhes sobre Bidica, detalhes contados nas rodas de amigos, pois eu só a conheci como expressiva foliã de muitos carnavais tieteenses. Figura imprescindível, quer sambando na rua ou nos carros alegóricos, simbolizou alguns personagens. Lembro-me de um Carnaval quando esteve presente no palanque das autoridades em uma justa homenagem, na época recebida das mãos do então prefeito Paulo de Souza Alves Filho.
Por muito tempo, era comum ver Bidica, com suas roupas estampadas e coloridas, turbantes, brincos e correntes douradas, acompanhar com seu gingado o ritmo dos blocos carnavalescos e das escolas de samba da nossa terra. Imagens que, com certeza, estão na memória de todos que participavam ou assistiam a Folia de Momo.
No Carnaval e também como figura participativa nas rodas do tradicional e folclórico Batuque de Umbigada, a história da carnavalesca Bidica se transformou pela sua simplicidade, pois era uma pessoa popular, amiga e conselheira. As portas da sua casa e do seu coração estavam sempre abertas para aqueles que procuravam palavras de conforto e conselho. Bidica chegou a embalar tantas crianças órfãs ou abandonadas que era chamada de mãe de criação, homenagem da qual ela tanto se orgulhava.
Após muitos papéis desempenhados na vida e com o passar do tempo, Bidica adoeceu. Durante anos, sofreu com sua saúde precária diante das condições da própria idade. Não pode mais ver os carnavais, não pode mais sambar, mas não esquecia ninguém.
A lendária Bidica faleceu em 16 de julho de 1997, aos 95 anos, deixando legado de amor, alegria, vivacidade, força e luta.