Beto Rodrigues incentiva a adoção dos SRD


Vereador também destaca o trabalho de conscientização animal realizado pelo projeto Miaujude, de Tietê, e pela Avac, de Cerquilho

O Departamento de Jornalismo do Nossa Folha convidou o vereador Beto Rodrigues (PSB) para esclarecer a população sobre medidas eficientes para lidar com o problema que é o abandono de animais, além das adoções dos denominados Sem Raça Definida (SRD), já que ele é um defensor da posse responsável, da castração e dos animais abandonados.

NOSSA FOLHA – Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que o Brasil tenha 30 milhões de animais vivendo nas ruas. Desse impressionante número, 20 milhões seriam de cães e 10 milhões de gatos. Dentre graves motivos, é importante citar a falta de controle por parte do Poder Público e de medidas eficientes para lidar com o problema e o abandono dos animais. Como ajustar esta questão, eficientemente, em Tietê, por exemplo?
Beto – Primeiramente, cabe informar que essa questão não é apenas municipal, mas sim nacional. Maior problema que temos é a falta de conscientização da população, mas também não há quase campanhas no Brasil sobre o abandono de animais. Além disso, as leis não são eficientes.
A população ainda vê o animal como objeto a ser utilizado e descartado. Tietê é uma cidade pequena. Muitas vezes com mentalidade retrógrada, as pessoas tendem a abandonar os animais nas primeiras dificuldades.
Sempre há algum motivo “de força maior” para o bichinho ficar fora dos planos: gravidez, mudança de cidade, alergia, o animal cresceu muito… Nunca é culpa do dono! O mais triste do abandono é que o animal sofre sérias sequelas, pois não consegue entender o porquê daquilo.
O Brasil é um país com muita desigualdade social, então, todos sabemos que, infelizmente, a causa animal fica em segundo plano, pois o governo ineficiente não consegue cuidar de tudo que lhe cabe. Longe disso, inclusive!
Diante de tantos problemas, é imprescindível o apoio público às pessoas que se dedicam à causa animal, porque amam e respeitam os bichos e não conseguem aceitar que eles sofram pela inconsequência humana. No mais, a proteção aos animais também passa, necessariamente, pela punição às pessoas que abandonam, maltratam ou violentam um bicho.
Conscientização é sempre o melhor caminho para uma sociedade mais harmônica, ainda que para atingi-la seja necessária a punição.

NOSSA FOLHA – Mesmo sendo maioria do mundo, tem sido uma batalha nas últimas décadas a mudança de significado do SRD na cultura. Felizmente, depois de muito trabalho e uma mudança de consciência na sociedade, a imagem do SRD tem mudado e mais pessoas, de todas as classes sociais, abriram seus corações e casas para a adoção deles. O vereador é um bom exemplo disso. Não é mesmo?
Beto – Verdade! Em 2016, minha esposa Roberta passou a considerar a ideia de termos um cachorro em casa. Na época, eu não me ligava na ideia. Minha única exigência era que o animal se chamasse Marcão, em homenagem ao histórico goleiro do Palmeiras. Ainda que fosse fêmea, seria Marcão!
Enfim, a ideia foi ganhando forma e, em um sábado de julho de 2016, o Marcão chegou em casa. Estava anêmico e fraquinho, mesmo tendo passado por tratamento intensivo na Associação de Voluntários Anônimos (Avac), em Cerquilho, pois foi resgatado por aquelas bandas. Aliás, só tenho elogios à Avac que, a exemplo do projeto MiauAjude, de Tietê, faz um maravilhoso trabalho com animais de rua e em situação de risco.
Após adotado, Marcão recebeu todos os cuidados e se transformou em um cão saudável e cheio de vida. Superbrincalhão, parece nos agradecer, todos os dias, por ter casa, comida e brinquedos.
O tempo passou e fiquei encucado que, talvez, Marcão precisasse de uma companhia, pois passava muito tempo sozinho. Passei a conversar com minha esposa até que, no fim do ano passado, fomos atrás de outro cachorro. Chegou Tião, todo almofadinha, superbem tratado desde seu nascimento e esperto. Ele chegou até nós através do MiauAjude e com fama de fujão. Justificada, aliás! Em várias oportunidades, nos deu trabalho com fugas espetaculares, mas, hoje, sossegou e passa os dias fazendo companhia para Marcão. Os dois não se largam!
Marcão e Tião são vira-latas, mas têm muita classe. Algumas vezes, estou passeando com os dois e as pessoas perguntam qual a raça deles. Não sei se fazem isso para agradá-los, e também a mim, mas não me importo. Principal é que eles são felizes e nos transmitem sentimento de amor incondicional e puro.

NOSSA FOLHA – De acordo com pesquisa do Instituto Datafolha, o SRD é o cão mais comum nas famílias paulistanas. Teriam sido entrevistadas 613 pessoas e, em amostra representativa de São Paulo com 16 ou mais, apenas 26% do grupo teria comprado seus animais. Como você avalia esta questão de adoção versus compra?
Beto – A compra de animais nunca foi um problema, o que realmente preocupa é a clandestinidade. Pessoas fazem a reprodução, principalmente de cães, em sua residência, sem preparo específico, visando apenas lucro. Os SRD surgiram pela mistura de várias raças e, com o abandono, animais acabaram cruzando entre si. Surgiu, assim, o “vira-lata”.
Atualmente, as pessoas entendem que o cão SRD também é ótimo companheiro, às vezes, até melhor que o com raça, pois não há custo financeiro para tê-lo nem tem especificação de alimentação, tosas e banhos. Em regra, é mais fácil de cuidar.
Acredito que, com a quantidade de animais atualmente disponíveis para adoção, não há necessidade de comprar. Aliás, não são só os SRD, há animais de raça para adoção também. Resumindo, compra e adoção são válidas desde que a pessoa que compre tenha certeza de onde veio o animal e que tenha condições de cuidar, e a pessoa que adote tenha em mente que o animal precisa do mesmo amor e cuidados de um animal comprado.

NOSSA FOLHA – Todos os cães são inteligentes e possuem diferentes aptidões. No caso do SRD, eles são herdeiros de uma longa tradição de esperteza, que os tornou, em sua maioria, ativos e engenhosos. Como convencer as pessoas que os SRD são tão especiais quanto os RD? Qual seria sua campanha de conscientização?
Beto – Não há como afirmar que um é melhor que o outro. Cada animal tem sua habilidade. Acho que isso vem muito da criação do animal. Não é porque o animal é de raça que ele vai ser perfeito. Da mesma forma, um cachorro SRD pode aprender todos os comandos que um animal de raça executa.
Conversando com as protetoras do projeto MiauAjude, elas me contaram que, nos anos de proteção animal, puderam verificar um aspecto: não é raro animais de raça que já vêm geneticamente com alguma doença, seja renal (yorkshire), de pele (pitbull) e de hiperatividade (boder collie). Quando alguém compra um animal dessas raças, por vezes, adquire também a necessidade de ração específica, de medicamento específico e de rotina específica. Não que os SRD não tenham isso. Pelo contrário, podem ter os mesmos problemas.
O que quero explicar é que todos os animais têm suas peculiariedades. Um animal que está para adoção cria uma certa imunidade. Até mesmo por conta da mistura de raças, as doenças específicas acabam não prevalecendo e, ao meu ver, tornam-se mais fortes e resistentes. Podemos comparar à gravidez. Se pegarmos um cachorro de raça, seja qual porte for, dificilmente terá uma gestação com mais de cinco filhotes e muito provavelmente o parto seja cesária. Agora, um SRD chega a ter 10 a 12 filhotes sozinho, amamenta seus bebês e não tem qualquer problema.
Uma campanha de conscientização faz com que as pessoas parem de pensar no status e comecem a pensar no animal. Todos os bichinhos dão amor de forma igual, querem carinho e uma cama quentinha. Sugiro às pessoas em dúvida sobre a escolha o seguinte desafio: visitem uma feira de adoção e vejam o brilho nos olhos dos bichos que esperam um lar. Será difícil não surgir um sentimento de empatia!

NOSSA FOLHA – Por que autoridades públicas, em sua maioria, desprezam a questão de ações de apoio à castração e adoção responsável? Concorda que, se bem trabalhado, o controle populacional dos animais domésticos é uma iniciativa que vai beneficiar a todos?
Beto – Ações públicas demandam investimentos que as cidades, por vezes, não têm. Então, é compreensível a letargia do Poder Público para a questão animal. Mas isso não significa que devemos aceitar a omissão governamental. Animais de rua são assunto de saúde pública, tanto que a Zoonoses está vinculada à Secretaria de Saúde.
A castração e o incentivo à adoção, evidentemente, auxiliam as cidades no controle de cães e gatos. Ideal é um serviço eficiente de castração, seguido do incentivo à adoção. Com isso, teremos cada vez menos animais de rua e, consequentemente, será reduzido o risco da população sofrer com doenças transmitidas pelos animais. Além, é claro, de diminuirmos a tristeza que é ver animais na rua, sem um lar e passando medo, frio e fome.
Qualquer ser humano em estado de necessidade tem enorme apoio do município, e nem poderia ser diferente, mas os animais estão relegados à própria sorte. Ainda bem que existem muitas pessoas (ativistas animais) dispostas a ajudá-los. Essas pessoas merecem todo o apoio possível, não só do Estado como também da sociedade. E Tietê tem muita gente ajudando sempre. Cada vez mais pessoas, aliás. Que continuemos assim!

NOSSA FOLHA – No caso de Tietê, qual é a razão do processo de castração de animais domésticos ainda não ter iniciado? Conte-nos sobre a situação da falta de castração dos animais ser alvo de inquérito civil, que se encontra em análise no Ministério Público do Estado de São Paulo.
Beto – A castração pública passou a ser um problema a partir do ano passado, quando a Zoonoses (órgão responsável pelo serviço nos últimos 12 anos) anunciou a paralisação das atividades regulares, sob argumento de que a castração deveria ser praticada apenas em situações emergenciais, ou seja, em superpopulações e epidemias, por exemplo.
E de fato a Zoonoses não tinha estrutura necessária para praticar 45 castrações por mês, como acontecia (um adendo: o veterinário que realizou esse serviço durante mais de uma década merece toda nossa consideração e respeito, pois as condições para as intervenções nos animais eram muito distantes do ideal). Diante disso, os responsáveis foram notificados para que tomassem as providências necessárias à manutenção do serviço, no entanto, nada fizeram.
Em 2018, as castrações foram, efetivamente, interrompidas e, como o Governo Municipal não dava mostras de que pretendia resolver a situação, passei a cobrar ações. Como não fui atendido, procurei o Ministério Público, que instaurou procedimento para apurar o ocorrido.
Enquanto isso, a responsabilidade pela castração saiu da Secretaria Municipal da Saúde e passou para a do Meio Ambiente. Iniciei conversas com George Nicolosi, secretário da pasta, que definiu um novo formato para o serviço, tendo optado pela contratação de um profissional da área (veterinário) para castração de 40 animais por mês, preferencialmente para pessoas de baixa renda e ativistas animais.
Em julho, os procedimentos foram finalizados, com a contratação de uma médica-veterinária, no entanto, os dias foram passando e nada do serviço ser retomado. Voltei a cobrar explicações do governo. Enquanto isso, o Ministério Público continua acompanhando o assunto, devido às reclamações da população sobre a falta do serviço.
A verdade é que estamos muito próximos da retomada da castração pública, porém, ao mesmo tempo, já são quase nove meses sem o serviço. Pelo que apurei nos últimos dias, já existe um cronograma de atendimento da população.
Espero que o serviço seja, efetivamente, retomado para analisar se realmente atenderá às necessidades da população carente e das pessoas protetoras dos animais em situação de risco. Enquanto a castração não funcionar, continuarei atuando com afinco na causa, pode ter certeza.
Além da castração pública, temos um Canil Municipal, que também merece atenção. Sei da dedicação dos funcionários que lá trabalham e pretendo apoiá-los em busca de melhores condições. Assim farei quando a castração estiver em plena atividade.
Por fim, devo destacar que, apesar de minhas cobranças, o governo ainda não elegeu o Conselho Municipal dos Animais, em outra demonstração que a causa animal, infelizmente, não é prioridade dessa administração. Paciência! Continuarei apoiando a causa mesmo diante da inércia do Governo Municipal.