Breve perfil de Rima Abdalla


Por Zaine Abdalla Grohmann e Jamile Abdalla Mônaco

Trabalhar com amor é orar com as mãos. Assim, Rima Abdalla pautou sua vida.
Há 90 anos e 10 meses, o Senhor Deus presenteou a família Abdalla, residente em Tietê, com o nascimento de Rima, em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia, e ela a agraciou com luzes divinas.
A seiva vinda do Cedro do Líbano se entrelaçou à auriverde do Pau-brasil e, juntas, fizeram Rima, inteira coração.
Em sua primeira infância, desfrutou das alegrias familiares do convívio com o nosso vovô, nossos pais, irmãos, tios e primos.
O saudoso Grupo Escolar “Luiz Antunes”, em Tietê, foi seu berço escolar. Anos depois, já diplomada, ali lecionou na categoria de substituta efetiva e, também, nas escolas a ele vinculadas.
Por concurso público, ministrou aulas em várias cidades até sua remoção à terra natal, onde trabalhou junto à Guarda Mirim e escola do bairro Garcia.
Esta ciranda culminou com sua aposentadoria na então denominada E.E.P.S.G. “Plínio Rodrigues de Morais”, escola em que se diplomou.
Professora exemplar, amou a todos e por todos foi amada. Seus alunos foram seus filhos e seus superiores e colegas foram seus irmãos.
Rima, querida, vamos conversar e relembrar… Sabemos que você era a companheira da mamãe em todos os afazeres domésticos. Menina esperta, logo começou atender os fregueses na loja e no armazém ao lado do vovô.
Em suas narrativas, relembrava quando teve sarampo, catapora, coqueluche, dizendo que papai havia ido a São Paulo em busca de medicamentos e que Jorge Haiub, seu padrinho, mandou-lhe uma boneca de louça.
Você, mimadinha, queria dormir até mais tarde que as irmãs, ao ponto da nossa amada Latifa puxá-la da cama com o colchão e tudo. Ah! Você deitou no chão mesmo…
Brincou muito no quintal, saltando de galhos em galhos das frondosas árvores, colhendo frutas, alegrando-se com os passarinhos. Levou até picada de escorpião e aranha! O quintal foi sua paixão até os últimos dias de sua vida.
Todos nós, cinco irmãos, fomos crescendo e delineando nossa personalidade, entre alegrias e dolorosos golpes, que nos tornaram mais unidos, com mais amor.
Das alegrias, qual a maior, Rima? Vê-la se tornar mestra, como as irmãs? Ver o nascimento dos sobrinhos e sobrinhas-netas?
Quem poderá nos dizer, Mim (aqui você já era chamada assim), qual dos golpes foi mais doloroso? Meu Deus! Penso que nem o Senhor sabe!
Muito jovem, você fez ecoar suas resolutas palavras naquela enorme sala: “Aqui não se vende nada. Eu sei cozinhar, sei tomar conta da casa, da loja, do armazém e sei cuidar delas”. Assim falou após o falecimento de mamãe, quando papai pensou em vender o sítio.
E suas mãos oraram, Rima, pois trabalharam com e pelo amor. O amor é a única flor que brota e cresce sem ajuda das estações. Daí, você ter exalado perfume por onde passou e pelos confins onde o vento levou. Assim, também o fizeram nossos inesquecíveis irmãos Halim e Latifa.
Neta e filha exemplar, irmã zelosa, tia, sobrinha e prima amorosa, amiga sincera e leal, mestra dedicada, você acolheu a todos. Coberta de simplicidade, você não se ateve as suas qualidades, razão pela qual registro este provérbio oriental: “O mundo é sustentado por quatro colunas: a sabedoria dos sábios, a justiça dos fortes, a oração dos justos e o valor dos bravos”.
Como sábia, você acompanhou, participou e reconheceu as necessidades básicas de cada familiar, cada amigo, cada aluno. Herdeira do senso de justiça, transmitiu pelo exemplo e vivência os preceitos morais, sociais e cívicos. Sua vida foi um incansável desfiar das contas do Rosário. Orava para agradecer, orava para bendizer, orava para louvar. Quando o fazia para pedir, não era para si. Invocava a Virgem Maria, venerada especialmente sob os nomes de Nossa Senhora Desatadora de Nós e Nossa Senhora Aparecida. Santa Teresinha e Santa Luzia estavam em suas orações; sempre havia alguém por quem interceder.
Rima, você fez cada dificuldade um desafio a vencer. Guerreira por hereditariedade, lutou com nobreza de caráter e alma. Não admitia um “a” desfavorável aos irmãos. Valorosa, corajosa, intrépida como ninguém, soube abrir seus lábios para sorrir e aconselhar; seus braços para acolher e seu coração para amar. Quanta abnegação! Quanta doação!
Filha e irmã, somente, mas Deus a completou tornando-a mãe. Mãe do próprio pai, mãe dos irmãos, mãe dos alunos, mãe de outros necessitados.
Hoje, querida Rima, sinta-se privilegiada no Céu. Você tem dois pais, Deus e Abdalla Jabur; duas mães, Maria Santíssima e Casuna Kinhon; dois irmãos, Halim Abdalla Gebrael e Latifa Abdalla de Moura.
Com eles e por eles, nos subscrevemos: Jamile Abdalla Mônaco e Zaine Abdalla Grohmann. Beijos, Rima Abdalla – Abdalla com b mudo e dois eles, como você gostava de dizer.