Canatelli, um humanista à frente da Arquitetura


Segundo o arquiteto e urbanista de Tietê, inspiração para atuar na área veio da família e de plantas de apartamentos publicadas no Estadão

Juliano Canatelli é formado pela Unimep desde 2004

O arquiteto e urbanista Juliano Edmar Novaes Canatelli, filho de Maria da Graça Novaes Canatelli (Gracinha) e Luiz Antonio Zanardo Canatelli, é o entrevistado desta edição do jornal Nossa Folha.
Nascido em 11 de julho de 1980, em Tietê, Juliano Canatelli tem projetos no município e região, sendo considerado por clientes e amigos uma das referências em sua área.
De caráter humanista, o entrevistado contou com quais técnicas gosta de trabalhar, as maiores dificuldades em seu histórico profissional e como sua personalidade influencia em seus projetos.

Nossa Folha – O que o levou a ser arquiteto? Teve algo ou alguém que o inspirou?
Juliano Canatelli – Foi uma inspiração mesmo, vinda dos meus pais e da minha família, que sempre me incentivaram a produzir com as mãos e com as ideias. Logo percebi que, com as mãos, não seria tão eficiente e que, com dedicação e amor, me sairia melhor estudando.
Nessa fase, bem inicial, o jornal O Estadão me ajudou! Havia muitas publicações de plantas de apartamentos à venda, o que me fez interagir com a ideia de construir espaços. Descobri qual era a função do arquiteto e nunca mais tive dúvidas.
Assim, projetei e construí a primeira casa – uma planta em L de seis águas com telhas de barro branco – há 22 anos, ainda intacta. Só depois dessa experiência prática, cursei a faculdade de Arquitetura e Urbanismo na Unimep, em Santa Bárbara d’Oeste, concluindo o curso em 2004. Desde então, é incessante a vontade de organizar o espaço.

NF – Como você define a Arquitetura e Urbanismo? Quais elementos mais gosta de trabalhar em sua área?
JC – Como uma técnica e uma ciência. É uma técnica, como qualquer outra, que precisa ser estudada e aprendida. É uma ciência porque precisa se moldar à realidade do ser humano. A arquitetura ensina o privado, enquanto o urbanismo ensina o coletivo.
Arquitetura é a simbologia do espaço como abrigo, trabalho, segurança, elegância, entre outros. O Urbanismo é identificar e projetar esse espaço em uma região territorial com suas características naturais e humanas. O saber fazer documentado, como técnicas de dimensionamento humano e espacial, de condições estruturais e materiais, somadas a outras características, como a condição de clima, vizinhança, fluxo, proporção e conforto, geram bons projetos de arquitetura.
O design é a transferência do conhecimento técnico e psicológico compartilhados para resolução de projetos.
Arquitetura é habilidade de organizar o espaço. Projetar, construir, decorar e planejar.
Gosto de estudar o comportamento humano diante do espaço. Veneza é um reflexo disso para mim. Projetar atento ao lugar é essencial. É desafiador criar uma construção com a melhor tecnologia e conforto social – disponíveis ao meu tempo – e que perdurará por décadas.

NF – Seus projetos estão em Tietê e região, sempre muito elogiados devido à beleza e à praticidade dos ambientes. De onde vem tanta inspiração?
JC – A praticidade vem de observar e estudar a ciência do comportamento humano ligado à ocupação do espaço, como nos apropriamos, ou não, dos lugares. A beleza vem da obsessão pela proporção, pela escala homem e mundo. Agradeço a pergunta, pois tenho como terreno fértil essas importâncias.
A inspiração, talvez, venha do fato de perceber que o ser humano, cada vez mais, é dependente de design: da chave de casa ao modo que você deve parar o carro no estacionamento. A inspiração vem da repetição também. Chegar a soluções criativas e bem articuladas – e praticá-las – é empoderador.

NF – Dos seus projetos, quais foram e são os maiores desafios até o momento?
JC – Projetar edifícios foi um desafio. Atuar junto à Prefeitura, na Secretaria Municipal de Planejamento, com os mecanismos públicos, foi outro desafio. Pensar, estudar, planejar e projetar, para o urbanista é fenomenal. É a técnica aplicada ao coletivo. É vivo! Trabalho árduo pode apostar!
A Arquitetura e o Urbanismo são disciplinas que acabam se distanciando no mercado de trabalho. Desafio do momento é pensar que a arquitetura, se bem organizada na sua produção, gera qualidade para todo campo do trabalho.

NF – É possível aliar bom gosto com baixo custo de uma construção através de um planejamento arquitetônico? Como?
JC – Solução vem com o projeto. E solução é sinônimo de economia. É só investir em ideias!

NF – Você tem um caráter humanista, que é uma das suas características como cidadão. De alguma forma, isso te ajuda a criar os projetos e entender a necessidade de cada cliente e ambiente?
JC – Humanismo vem do “conjunto de doutrinas fundamentadas nos interesses, potencialidades e faculdades do ser humano, sublinhando sua capacidade para a criação e transformação da realidade natural e social, e seu livre-arbítrio”, segundo o Google.
Como urbanista e cidadão, isso ajuda sim, pois produzimos no escritório projetos atentos à escala em que vivemos e nos preocupamos como esses espaços vão compartilhar com a cidade.
Por isso, as cidades devem estar atentas e se organizarem de modo a atender a demanda de uma população, que é conectada. É livre! A formação do arquiteto urbanista ajuda na tarefa árdua que é a organização desse espaço.
Além do mais, o espaço urbano tem que ser inclusivo. Não se pode fechar praia, rua, ponte. É preciso abrir, incluir praça, estátua, saneamento, que pode ser básico, mas também não precisa ser.

NF – Vivemos em um País marcado por intensa desigualdade social. Acredita que a Arquitetura e Urbanismo tem uma função importante na redução de espaços sociais que dividem ao invés de unirem a sociedade como um todo?
JC – A desigualdade social é profunda, esbarra na arquitetura, porém, a arquitetura não chega influenciar esse cenário. Uma maneira de reduzir a desigualdade social através da arquitetura, por exemplo, é proporcionando transporte de qualidade para todos.
A Arquitetura e o Urbanismo agregam um saber pensar e refletir social construtivo, criando uma consciência de que o espaço é de absolutamente todos que estão aqui, de gente a rio.
Observe um parque, uma avenida, em qualquer cidade haverá pessoas. Se bem projetados, atenderão a todos com conforto. Sejam os que andam a pé, de bike, de trem, de carro ou de barco. Gerar conforto comum é qualidade que une o tecido social.
Para projetos de habitação, ainda elegemos partidos duvidosos. Ou não.
Em todos os projetos do escritório, pensamos na condição social do processo, respeitando a qualidade e o “saber fazer” de cada etapa.

NF – Quais as próximas tendências para sua área? O que pretende deixar como legado para clientes, amigos e familiares?
JC – Tendência de mercado, de modo geral, é o faça você mesmo. Principalmente no campo do design de interiores. Entender esse público e fornecer o trabalho certo e eficaz é campo vasto de oportunidades dentro do mercado da construção.
Outra tendência é industrializar a construção. A natureza do trabalho físico é menor. A construção tende a ser mecanizada: juntar painéis, projetar com bombas de espuma, ou montar “legos”, de paredes ou de interior design.
Existe um dado de que cada ser humano precisa de 16m² de área verde no seu habitat, seja no trabalho ou em casa, para viver melhor. Porém, o comportamento social discorda, vide escolhas equivocadas – que repetimos – como gastar dinheiro e recursos naturais para abrigar automóveis, como se sentissem frio ou fossem perecíveis.
Entender que o conforto de dormir bem, assim como ter cinema, parque ou casa é uma característica da sociedade saudável, pois todos precisam de coisas muito parecidas, de modo geral.
Como legado, modestamente, eu penso em deixar a ideia de que o design é a imaginação aplicada a uma técnica, que precisa ser desenvolvida com amor.
Jornal Nossa Folha, fico gratíssimo por me convidar a refletir um pouco sobre a importância da minha profissão. “A arquitetura é a produção de operar a consciência com o espaço”.