Conheça o sétimo passo do Narcóticos Anônimos


Esta etapa sugere que peçamos a um Poder Superior que nos livre dos nossos defeitos e ensina a invocar os princípios da perseverança e paciência

Em sequência aos relatos da sua experiência como alcoólico, Vitório (nome fictício) comenta nesta edição sobre o sétimo dos 12 Passos do Narcóticos Anônimos (N.A.).
“Através da prática do sexto passo, nos encontramos inteiramente prontos a deixar que nossos defeitos sejam removidos. Parece começar uma grande confusão, pois quanto mais lutamos contra um defeito específico, mais forte ele se torna, realçando, cada vez mais, que não somos impotentes só perante nossa adicção, o somos também perante os nossos defeitos.
Nesse ponto, é necessário grande dose de humildade, que nada tem a ver com humilhação. Muito pelo contrário, uma atitude de humildade significa que temos ou estamos aprendendo a ter uma visão mais realista de nós mesmos e do mundo.
Nesse momento, preciso sair do caminho para que o Deus da minha compreensão possa fazer seu trabalho e deixar de lado aquele pensamento: ‘Da minha vida cuido eu! Uso quando quero e paro quando quiser! Ninguém tem nada a ver com minha vida. Sei o que estou fazendo’.
No fundo, essa necessidade de controlar nada mais era que uma forma de encobrir que eu já havia perdido o controle de tudo há muito.
Desse modo, o sétimo passo não sugere que nos livremos dos nossos defeitos, mas que peçamos a um Poder Superior que nos livre deles. Assim, o foco das nossas orações começa a mudar. Admitindo nossa inabilidade de lidar com esses defeitos, rogamos a Deus que faça por nós o que não conseguimos fazer sozinhos.
Assim, novamente me torno criança perante ao Pai e peço ajuda, orientação e forças. A essa altura, temos que invocar os princípios espirituais da perseverança e da paciência, bem como da fé. Muitas vezes, não experimentamos qualquer alívio imediato e total dos nossos defeitos, porém, começamos a sentir sutil mudança em nós mesmos e nos outros. Passamos a olhar quem está à nossa volta de maneira menos crítica, pois sabemos que todos temos defeitos e, como nós, gostariam de se livrar deles.
Claro que vamos nos pegar pensando: ‘Será que todos rezam para se livrar dos seus defeitos?’ Por isso, precisamos nos atentar para aquela entrega feita no terceiro passo e nos abster de tentar imaginar como o Poder Superior agirá para nos livrar dos defeitos de caráter.
Com este sétimo passo, o que parecia artificial, agora é real, ou seja, podemos sentir que somos escutados e atendidos por um Poder Superior e, assim, nos sentimos amados. Ao contrário de antes que tínhamos perdido a capacidade de amar, rir, sentir as pessoas. Lá trás, não conseguíamos enxergar um ser humano através do nosso olhar vago.
Nas reuniões, começamos a experimentar amor e aceitação que, no entanto, mesmo vindos de ótimas famílias e criação, eram sentimentos que não habitavam nosso interior. Parecia que Deus estava afastado de nós ou nem se importava conosco pelo fato da nossa doença ser pautada pelo total egocentrismo e isolamento. Tanto que todos meus relacionamentos estavam voltados ao uso e satisfação dos meus desejos imediatos, pois havia me afastado não só de Deus, mas das pessoas que realmente me amavam.
Por isso, no momento, não importa se não conseguimos nos livrar dos defeitos de caráter. Afinal, não buscamos a perfeição ou completa humildade, só a capacidade de enxergar e sentir o amor de Deus.
No Narcóticos Anônimos (N.A.), a paz de espírito, há muito desejada, surgiu. Agora, conseguimos testemunhar um milagre apenas olhando para o espelho. É Deus a transformar seres falidos e fragmentados em cidadãos responsáveis e produtivos, conscientes e desejosos de vida plena de liberdade e altruísmo. Até este passo, era Deus e eu na busca do autoconhecimento. Agora, no oitavo passo, aceitarei responsabilidades e fazer as pazes com quais prejudiquei.
(continua)