Desvendar os significados dos ornamentos e símbolos da fachada do Grupo Escolar de Tietê


Por Pedro Luiz Dal Boni

Passada a Proclamação da República, os republicanos paulistas implantaram o sistema de ensino da época por meio da criação dos grupos escolares e, assim, implementaram o processo de democratização da educação popular. Na época, os grupos escolares substituíram as antigas escolas isoladas do Império e, assim, esse sistema de ensino se disseminou pelo País.
Naquele período, os republicanos elevaram os edifícios escolares à altura da grande importância dada à Educação, instituição esta que formava cidadãos, e, assim, eles eram contemplados e admirados. Muitas vezes, instalados ao lado de outros prédios importantes, como Fóruns, Prefeituras e Câmaras, os grupos escolares ocupavam lugar de destaque.
Com o edifício do Grupo Escolar de Tietê não foi diferente, apesar de não possuir prédios vizinhos tão célebres como os acima elencados! Erigido no Centro da cidade, ostentando dois andares, foi o único dos prédios escolares surgidos na época que possuía o mapa da América do Sul em sua fachada. Era impossível não se impressionar com a riqueza da sua fachada, que apresentava um Brasil, escrito com “z”, símbolo do poderio republicano no passado. Até mesmo no centenário presente ainda o é.
Muitos pesquisadores da História de Educação, dentre os quais Mozart Araújo Jr., apontam que os símbolos contidos nos grupos escolares ainda são uma incógnita e, tentar revelar a intenção desses símbolos, é desvendar o mistério da criação dos prédios escolares paulistas na Primeira República.
Rosa Fátima de Souza, profunda estudiosa dos grupos escolares, em sua obra denominada templos de civilização, enfatizou que a alegoria da fachada presente no Grupo Escolar de Tietê, caso único entre os primeiros grupos escolares do Estado de São Paulo, presta um tributo à instrução como ciência e cultura e aponta excesso de ornamentos e símbolos em sua arquitetura.
A ideologia positivista de Augusto Comte se faz presente nos ornamentos e símbolos da fachada do Grupo Escolar de Tietê e ressaltam o espírito cívico predominante nos primeiros anos da República.
Para a estudiosa Rosa Fátima, o suporte de vários símbolos presentes na arquitetura dos primeiros grupos escolares indica representações políticas e sociais, ou seja, apologia ao Estado Republicano e à cultura urbana.
É o caso dos símbolos presentes na arquitetura do Grupo Escolar de Tietê, em destaque as formas e alegorias contidas na fachada desse prédio construído em 1898. Ali, há presença de dois círculos em azul e neles têm faixas e estrelas brancas que representam o “Cruzeiro do Sul” e os ideais positivistas contidos na bandeira do Brasil.
A colocação dos ramos verdes, por exemplo, representa a cultura cafeeira, tão presente no período e considerada a principal economia do Estado na época.
Vale lembrar de um fato histórico, conhecido como a “Política café com leite”, que tratava de acordos firmados entre as oligarquias estaduais e o Governo Federal durante a Primeira República para que, assim, os presidentes da República fossem escolhidos entre os políticos de São Paulo e Minas Gerais.
O Grupo Escolar de Tietê representou um marco na história da Educação do município. Instalado em 15 de outubro de 1894 e inserido nesse atual prédio em 1898, foi tombado pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (Condephaat).
Vale registrar que as plantas do Grupo Escolar de Tietê estão assinadas por Antonio By, sendo que a lista de documentos da Secretaria da Viação e Obras Públicas do Estado de São Paulo atribui a autoria a Victor Dugubras.
Entretanto, o tratamento formal utilizado no Grupo Escolar de Tietê em muito se diferencia das escolas projetadas por Dugubras e apresenta excesso de ornamentos e símbolos que representam ideologia positivista.
Pedro Luiz Dal Boni é delegado de Polícia Civil do Estado de São Paulo, além de mestre e doutorando em Educação pela Universidade de Sorocaba