Explosão em Cerquilho completa 70 anos


Por Deraldo Rodrigues (in memoriam)

Há 70 anos, a Cerquilho Distrito vivia um dos fatos mais marcantes de sua história. Era 30 de janeiro de 1948, quando um vagão de trem, estacionado no pátio da Estação Ferroviária da Sorocabana e carregado com dinamite, explodiu e matou quatro pessoas, além de ferir outras 36 e destruir dezenas de casas do pequeno “Cercado”.
Na época, Cerquilho, distrito de Tietê, contava com 2.518 habitantes e, nas proximidades da estação da Estrada de Ferro Sorocabana (EFS), utilizada para manobras e carregamentos de vagões de carga, havia apenas 10 ruas: dr. Soares Hungria, dr. Campos, João Gaiotto, Ângelo Luvizotto, João Audi, Bento Souto, Antonio Costa Magueta, São José, Carlos de Campos e do Matadouro (atual avenida Brasil).
A HISTÓRIA – Em 27 de janeiro de 1948, um trem de carga chegou à estação no período da tarde. Em um dos vagões estavam cerca de cinco mil quilos de explosivos. Este trem ficaria no pátio da estação até o dia seguinte, mas a Superintendência Regional da companhia férrea decidiu manter os vagões no local por mais 48 horas.
Então, o chefe da estação, João de Castro, tentou alertar para o perigo de uma explosão, mas não foi ouvido pelos superiores, que ignoraram a norma da companhia que limitava em 12 horas o tempo de permanência de carregamentos perigosos no pátio da estação.
Sob o calor de quase 38 graus, o trem permaneceu estacionado por aproximadamente 72 horas. Exatamente às 16h15 de 30 de janeiro de 1948, o vagão explodiu e abriu enorme buraco no local. Barulho pôde ser ouvido a quilômetros de distância. Dezenas de casas foram destruídas sem que as pessoas soubessem o que estava ocorrendo.
De acordo com relato de Benedito Morato, subdelegado de Cerquilho na época, todos saíram das residências aflitos pedindo socorro. Estação e todas as construções em um raio de 150 metros foram completamente destruídas. Na explosão de 1948, morreram Nestor Falcim, Luiz Urso, Gabriel Vieira da Cruz e Carlos Sebastiani.
Trilhos da EFS ficaram inteiramente danificados, o que interrompeu o tráfego de trens entre a cidade de São Paulo e o interior do Estado Paulista. Entre lágrimas e tristezas, os “bravos cerquilhenses” uniram-se para recuperar o que sobrou nos escombros.
Essa notícia espalhou-se rapidamente e mereceu destaque nos veículos de comunicações mais importantes da época. O “Repórter Esso” chegou a divulgar número exagerado de mortos e casas destruídas. Jornais de grande circulação chegaram a informar diversas versões para o episódio sinistro, entre elas, a de que a explosão tratava-se de um atentado político contra o então governador Adhemar de Barros, que iria passar por Cerquilho no referido dia, mas preferiu adiar a viagem. Chegou-se a comentar que o suposto atentado era para acontecer na vizinha Boituva, patrocinado por inimigos do governador.
Equipe da polícia técnica foi enviada para Cerquilho e, depois de dias de investigações, concluiu que, no vagão, também havia fogos de artifício, que acabaram sendo detonados pelo forte calor e serviram como estopim aos explosivos.
Como ficou comprovado que a explosão ocorreu por negligência da Estrada de Ferro Sorocabana, o então governador Adhemar de Barros decidiu ressarcir todos os prejuízos e liberou verba de 10 milhões de cruzeiros antigos, na época, para a reconstrução de Cerquilho, o que demorou cerca de sete meses.
No mesmo ano, veio a emancipação de Cerquilho com o slogan “Aqui o Trabalho Vence” (Hic Labor Vincit).
(Colaboração e pesquisa do escritor Deraldo Rodrigues – in memoriam)