Não pode ser em vão!


A destruição pelo fogo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, instituição que abrigava acervo de 20 milhões de peças, recolhidas a começar pela própria Família Real, que teve neste prédio a sua residência oficial, mostra uma tragédia de dimensão incalculável. O incêndio na noite do domingo, 2 de setembro, tratou-se de uma catástrofe que atinge a memória nacional devido à perda de importante acervo histórico, além de afetar a área científica por interromper e pulverizar pesquisas e representa um prejuízo cultural impossível de ser quantificado.
O desaparecimento de uma instituição com 200 anos e que não contava com estrutura adequada de prevenção a incêndios não é um acidente nem tragédia, é um crime. Sabe por quê? Porque o Museu Nacional, mantido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vinha passando por dificuldades geradas pelo corte no orçamento para sua manutenção. Pelo que se divulgou, desde o ano de 2014, o museu não vinha recebendo a verba que bancava a sua manutenção e apresentava sinais visíveis de má conservação.
Por isso, a tragédia anunciada do Museu Nacional reforça a necessidade da nossa sociedade fazer melhores escolhas. É indiscutível que os diversos acervos da história nacional, de sua cultura, precisam ser protegidos. Para isso, é necessário dinheiro, mas, antes de tudo, consciência da importância da Cultura, da Ciência e da História (isso vale para outros Estados e municípios também). A degradação do Museu Nacional e sua transformação em cinzas são um alerta para a urgência da revisão das prioridades orçamentárias deste Brasil e mostra que a tragédia da Quinta da Boa Vista é reflexo de um País em total colapso.
Um fogo que consome um museu inteiro é o exemplo mais forte que, no Brasil, há completa ausência de um projeto nacional que contempla a cultura e o conhecimento como parte fundamental na construção de um País melhor.
Veja só: o salário médio dos juízes brasileiros é de R$47,7 mil, incluindo todos os benefícios. Por ano, são R$572,4 mil, o que pagaria a manutenção anual do museu e ainda sobraria um trocado. Isso sem contar com o aumento de 16% aprovado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) há um mês. Quanto aos políticos, cada um dos 51 vereadores do Rio de Janeiro ganha R$18.991,68 por mês. Um mês de salários somados (R$968 mil) quitaria quase dois anos de manutenção no museu. Ao ano, os R$11,6 milhões cuidariam do prédio e seu acervo por 23 anos. Já o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, recebe contracheque de R$18.893 no fim do mês. Por ano, são R$226,7 mil ou metade do custeio e manutenção anual de todo o complexo.
Desse modo, fica evidente o seguinte raciocínio: ou mudamos as escolhas políticas, de verdade, ou veremos outros patrimônios brasileiros sendo destruídos pelo descaso destes governantes.