Para Joani, vivemos um excesso de maus hábitos


Segundo o professor e mestre, a única maneira para vencer a intolerância e o ódio no dia a dia é usar o amor nas relações com o próximo

Entrevistado alertou sobre a necessidade do respeito às pessoas

O professor Joani Corrêa Prestes, mestre em Letras e especialista em Língua Inglesa, é o convidado do jornal Nossa Folha para dar sua opinião sobre a democracia, relacionamentos humanos, intolerância, redes sociais, racismo, machismo, violência crescente, desajustes políticos, impossibilidade de diálogo, falta de soluções comuns, ódio de classes, entre outros temas.

NOSSA FOLHA – Os ânimos políticos andam cada vez mais acirrados, tratando as diferenças como inimizades. Hoje, de fato, está aceita como legítima a diversidade de pontos de vista no Brasil? Para você, na luta política, há adversários ou gladiadores prontos a matar inimigos?
Joani – No Brasil do século 21, há uma necessidade urgente de resgatar o verdadeiro sentido da “democracia”, com o propósito de estabelecer um diálogo entre os cidadãos. Na verdade, é “um regime político em que a soberania é exercida pelo povo”. E uma de suas funções primordiais sempre foi garantir a proteção dos direitos humanos, como a liberdade de expressão e a oportunidade de todos participarem da vida política, econômica e cultural.
Dessa forma, estabelece uma convivência com a pluralidade de discursos e a polifonia das vozes, “sem adversários ou gladiadores prontos a matar inimigos”. Todos desejam conquistar o bem comum e o progresso do País.

NF – Vivemos em uma sociedade inflexível, altamente intolerante e que não suporta ser contrariada, e isto em várias esferas dos relacionamentos humanos. Por que a maioria das pessoas não está se comportando dentro das regras da civilidade democrática?
Joani – Infelizmente, os “inflexíveis”, os “intolerantes” e “os que não suportam as opiniões contrárias” revelam uma característica de quem “não ouve o que os outros têm a dizer” porque acreditam que suas convicções são suficientes e definitivas. Por isso, a impaciência leva-os a abandonar as regras de civilidade democrática.

NF – O homem nunca esteve tão raivoso, exibindo uma intolerância beirando à taxa zero, envolto em um mau humor que rotulamos, criativamente, como “mau humor crônico”. Como mudar essa realidade?
Joani – Em alguns casos, há necessidade de tratamento por um profissional da área psicológica. Entretanto, para o chamado “passageiro” e “corriqueiro”, há soluções simples e ao alcance da maior parte da sociedade, como indicam os especialistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade do Rio de Janeiro. Aqui estão algumas delas: durma bem, alimente-se corretamente, faça exercícios e valorize a família e os amigos.

NF – Exemplos de intolerância política se avolumam diariamente, principalmente nas redes sociais. Isso simboliza o fracasso do ideal de liberdade para todos? Para onde foi a moderação humana?
Joani – Os indivíduos estão com excesso de maus hábitos nas colocações, nas reações e, o pior, sem um autodomínio de suas mentes. Dessa maneira, perderam o controle de seus temperamentos e estão mais sujeitos a cometerem erros. Portanto, há necessidade de consciência e do bom senso no uso das redes sociais.

NF – São assustadoras as menções de intolerância vividas ultimamente. Como estudioso, acredita no fim da democracia?
Joani – De forma alguma, pois o Brasil tem uma democracia relativamente nova. Dos países ocidentais, foi o último a abolir a escravidão. Seu processo de democratização começou em 1984, com a nova Constituição e o início de uma República presidencialista. Na Constituição de 1988, conquistou-se a liberdade de voto e expressão, além de eleições livres. Em 1989, foi eleito o presidente com as eleições diretas. No entanto, existem muitos problemas sociais e políticos em busca de uma solução, como desigualdades e corrupção. Enfim, como afirmam alguns estudiosos: “A democracia do Brasil ainda não é totalmente democrática”.

NF – A história nos oferece razões para a experiência e a sabedoria da prudência, algo que tem faltado à elite política. O que será deste universo que está em decadência nos próximos anos?
Joani – A elite política brasileira nos próximos anos necessitará de sabedoria aliada a uma avaliação de seus erros e acertos, além de colocar em prática o ensino do filósofo Sócrates ao definir o sábio como “aquele que conhece os limites da própria ignorância”.
Em paralelo com a prudência, a qual tem sua definição nos dicionários como “qualidade ou particularidade de pessoa que se comporta de maneira a evitar perigo ou consequências ruins; sinônimo de precaução e sensatez”. Em síntese, precisa agir e viver com discernimento, bom senso e retidão.

NF – Racismo, machismo, violência crescente, desajustes políticos, conspirações, impossibilidade de diálogo, falta de soluções comuns e um pedido ainda silencioso pela força são problemas relevantes, mas também são sintomas de uma política que cede ao jogo mais vil da luta pura pelo poder?
Joani – A grande questão dos “problemas relevantes” e dos sintomas tem sido a falta de respeito ao seu semelhante. A palavra de origem latina respectus (respeito) é “olhar outra vez”, pois o próximo merece sempre um apreço e uma consideração. O respeito torna-se um dos valores primordiais do ser humano e fundamental nos relacionamentos sociais. Diante disso, impede qualquer comportamento agressivo em relação ao outro.

NF – O ódio de classes, o ódio regional, o ódio contra os negros, o estereótipo das feminazis, o ódio oculto e não pronunciado contra os evangélicos, contra religiões afrodescendentes, o ódio partidário, o ódio contra os homossexuais… Algum dia ainda seremos capazes de conviver com as diferenças?
Joani – Através das redes sociais, nunca na história do Brasil houve um relacionamento tão intenso, com muitos assuntos em debates. As pessoas estão a discutir o País e avaliá-lo, pois pessoalmente jamais teriam contato com tantos pensamentos diferentes. Além disso, concordo com o historiador Leandro Carnal, professor da Universidade Estadual de Campinas, ao destacar que “está faltando à etapa seguinte, que é aprender a ouvir os outros. A democracia é sempre um aprendizado”.

NF – Tendo o ódio como expressão máxima, caminhamos por tempos obscuros, sem direção, sem razão e sem objetivo?
Joani – É lamentável tudo isso porque “o ódio como expressão máxima” tem o poder de cegar o homem e destruir sua vivência em harmonia no universo social, além de impedir sua convivência com as diferentes formas de pensamento. Portanto, existe a necessidade de conhecer seu discurso, combatê-lo com argumentos sólidos e consistentes, a fim de todos usufruírem dos seus direitos e deveres.

NF – Neste momento, qual sua mensagem para nossos leitores:
Joani – A única maneira para vencer a intolerância no dia a dia é o amor. Conforme o apóstolo São Paulo destacou em I Coríntios 13:04-07: “O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.
Assim, poderemos combater o discurso de ódio e expressar nosso amor ao próximo quando afirmamos: “Eu aceito você exatamente como é”; “creio que você tem muito valor”; “se você estiver sofrendo, eu me preocupo”; “eu desejo apenas o melhor para sua vida”; “eu perdoo suas ofensas”. Tudo isto é possível quando Deus habita em nosso coração porque Ele concede o verdadeiro amor.