Saiba quem foi Antônio Inácio da Silva (Moreno)


Nesta edição, o Nossa Folha prossegue com a série de reportagens sobre a vida de líderes de movimentos culturais, sociais e políticos

Última biografia sobre líderes de movimentos culturais, sociais e políticos do Brasil publicada pelo jornal Nossa Folha foi a de Cristino Gomes da Silva Cleto, conhecido como Corisco ou Diabo Loiro. Nesta edição, é a vez de Antônio Inácio da Silva, chamado de Moreno.
Nascido em 1º de novembro de 1909, em Tacaratu, Estado de Pernambuco, Moreno foi um cangaceiro pertencente ao bando de Lampião e Maria Bonita. Por seis anos, atuou em cidades dos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia ao saquear fazendas, sequestrar figuras importantes e amedrontar os povoados.
No fim da década de 1930, ao fugir dos ataques das forças federais que dizimou o grupo de Lampião e Maria Bonita – mortos em 1938, Moreno e a sua mulher Durvalina Gomes de Sá (Durvinha) decidiram fugir para tentar nova vida. Na ocasião, deixaram para trás o filho Inácio Carvalho Oliveira (Inacinho), nascido quando o bando ainda existia.
Por razões da clandestinidade, Moreno e Durvinha o entregaram ao padre Frederico Araújo, de Tacaratu, no sertão de Pernambuco. Na época, com roupas novas, um burro e 200 mil réis doados pelo próprio religioso, eles partiram sem destino.
Após quatro meses margeando o Rio São Francisco, Moreno e Durvinha se estabeleceram na cidade de Augusto de Lima, na região central do Estado de Minas Gerais. Por mais de 60 anos, adotaram nova identidade e, por precaução, passaram a se chamar Jovina Maria da Conceição e José Antonio Souto. Tiveram cinco filhos e prosperaram vendendo farinha.
Por um período, Moreno chegou a montar um cabaré e foi viver com as ‘mulheres da vida’, abandonando Durvinha, vindo visitar os filhos de tempo em tempo.
Já no fim da década de 1960, o casal mudou-se para o bairro Tupi, na região Norte de Belo Horizonte. O passado, que era segredo por décadas, foi descoberto graças à curiosidade e persistência de Neli Maria da Conceição, filha do casal, que encontrou nos entulhos do pai a foto de um garotinho. Ao questionar a mãe Durvinha, ela soube que tinha um irmão que os pais tiveram que deixar em Pernambuco por causa de suposta seca. Mas, na verdade, era o cangaço que tinha acabado.
Após muitos contatos e pesquisas da filha Neli, em 28 de outubro de 2005, Moreno e Durvinha reencontraram o filho Inacinho, deixado para trás durante a fuga. Inácio já tinha 66 anos e era segundo tenente reformado. Só ali ele soube, enfim, que os pais estavam vivos e formavam o último casal sobrevivente do cangaço.
Depois de ficar viúvo, em 2008, Moreno tornou-se um homem depressivo e, por sentir a falta da esposa Durvinha, ficou debilitado e acabou em uma cadeira de rodas. Nos seus últimos dias, segundo a filha, ele pedia descanso, pois não via mais sentido na vida.
Morreu em 6 de setembro de 2010, aos 100 anos, vítima de insuficiência respiratória. Como Moreno nunca imaginou que teria o privilégio de ter uma cova, pois sempre acreditou que ia ser encontrado e decapitado, como os outros cangaceiros, no dia do seu sepultamento, houve até soltura de fogos de artifício no Cemitério da Saudade, na capital mineira.
O casal, que viveu o auge do cangaço, tornou-se protagonistas da obra Moreno e Durvinha: Sangue, Amor e Fuga no Cangaço, do historiador baiano João de Sousa Lima, e também do documentário Os últimos cangaceiros (2011), do diretor Wolney Oliveira.