Saiba quem foi Jair Rodrigues


Nesta edição, o Nossa Folha prossegue com a série de reportagens sobre a vida de líderes de movimentos culturais, sociais e políticos

Última biografia sobre líderes de movimentos culturais, sociais e políticos do Brasil publicada pelo jornal Nossa Folha foi a de Paulo Tapajós Gomes Filho (Paulinho Tapajós).
Hoje é a vez de Jair Rodrigues de Oliveira, artista nascido em Igarapava, interior de São Paulo, em 6 de fevereiro de 1939. Depois de passar a infância e adolescência cantando em corais de igreja, começou a carreira profissional como crooner de casas noturnas em 1957. No ano seguinte, participou de seu primeiro concurso de calouros.
Na década de 1960, mudou-se para a capital de São Paulo, onde trabalhou como engraxate, mecânico, servente de pedreiro e ajudante de alfaiate enquanto tentava se estabelecer na música.
Começou a se destacar cantando sambas. Seu primeiro sucesso foi “Deixa isso pra lá”, lançado em seu segundo disco, “Vou de samba com você”, de 1964. Considerada a precursora do rap nacional, por conta do refrão falado, foi eternizada pela clássica coreografia que o cantor fazia com as mãos. Não à toa, nomes como Rappin Hood e Emicida lamentaram a morte “do primeiro rapper do Brasil”.
No ano de 1965, Jair Rodrigues substituiu Baden Powell em um show no Teatro Paramount, em São Paulo. Foi quando dividiu o palco pela primeira vez com a também estreante Elis Regina, que viria ser sua parceira profissional. Juntos, lançaram o disco “Dois na bossa”. Sucesso do álbum levou os dois a formarem a dupla Jair e Elis, que assumiu o programa O fino da bossa, da TV Record.
O canto poderoso e a simpatia garantiram sua popularidade nos anos seguintes, gravando discos e participando de festivais, além de fazer shows em vários países, como Portugal, Alemanha, França, Itália, Estados Unidos e Japão.
Com formação de crooner, versátil, passou por diversos gêneros, sem nunca se distanciar do samba, em álbuns como “Jair de todos os sambas” (1969), “Festa para um rei negro” (1971), “Antologia da seresta” (1979), “Lamento sertanejo” (1991) e “A nova bossa” (2004).
Tim Maia costumava dizer que Jair Rodrigues era o “careta mais maluco que já viu”. O crítico e pesquisador de música Ricardo Cravo Albim contou, em entrevista, que o cantor tinha o apelido “Cachorrão”, por ser um amigo muito fiel.
Em 2006, o artista foi o grande homenageado do Prêmio Tim de Música, em uma festa no Teatro Municipal. Na noite, foram lembrados seus sucessos, cantados por duplas como Germano Mathias com Roberta Sá e Alcione com Diogo Nogueira. Tributo teve, ainda, “Zigue zague” com Rappin’ Hood – com quem Jair gravou “Disparada” em versão rap no ano anterior – e “Deixa isso pra lá” em ritmo de tamborzão com Lulu Santos.
Último trabalho de Jair Rodrigues foram os CDs “Samba mesmo”, volumes 1 e 2, lançados em março de 2014. No projeto, idealizado pelo filho Jair Oliveira, ele registrou 26 canções que nunca tinha gravado, como Fita amarela e No rancho fundo, além de apresentar três inéditas. Na mesma época, participou do DVD comemorativo dos 30 anos de carreira de seu filho.
Preocupado em contar sua história, Jair Rodrigues estava preparando sua biografia, com a ajuda dos filhos, os também músicos Jairzinho e Luciana Mello. Em julho de 2013, ele descreveria no livro sua relação de amizade com Roberto Carlos nos anos 1960 e as baladas que frequentava quando solteiro, com figuras como Raul Seixas e Wando.
Atento à saúde, costumava dizer em entrevistas que cuidava bem do corpo, sempre indo a médicos e praticando exercícios – não era raro vê-lo de ponta-cabeça, em uma das mais clássicas e complexas posições da yoga, em camarins e até no palco. Isso mesmo depois dos 70 anos.
O cantor morreu de infarto agudo do miocárdio em 8 de maio de 2014, aos 75 anos, na sauna em sua casa, em Cotia, na grande São Paulo. Jair Rodrigues deixou, além dos filhos, quatro netos (dois de cada filho) e a mulher Clodine.