Saiba quem foi Simone de Beauvoir


Nesta edição, o Nossa Folha prossegue com a série de reportagens sobre a vida de líderes de movimentos culturais, sociais e políticos

Última biografia sobre líderes de movimentos culturais, sociais e políticos do Brasil publicada pelo jornal Nossa Folha foi a de Bertha Maria Júlia Lutz. Nesta edição, é a vez de Simone de Beauvoir, que foi a primeira ensaísta que explicou a condição das mulheres do ponto de vista destas.
Publicado em 1949, o primeiro volume (o segundo sairia no ano seguinte) de “O segundo sexo” estarreceu o mundo. Estava lá uma visão por demais clarividente do papel vivido pelas mulheres, através da História, das práticas sociais, do hábito sexual e amoroso e da divisão do trabalho. Referida obra foi fundamental para o movimento feminista dos anos 60.
“Ninguém nasce mulher: torna-se”, eis a frase e ideia-chave do livro. Tudo o que, de 1949 em diante, passou a se chamar feminismo obtém na leitura de “O segundo sexo” horizonte ideológico e, nas atitudes públicas assumidas por Simone de Beauvoir até o fim da vida, o exemplo da coragem sem a qual oprimido algum liberta-se.
Nascida em 9 de janeiro de 1908, em Paris, Simone de Beauvoir, mocinha, modelo de boa família, deixara de existir em 1929, pouco depois de ter ingressado, após concurso brilhante, na chamada Agregação da Universidade Sorbonne, juntamente de três dos seus colegas de licenciatura em Filosofia: Maurice Cadillac, Paul Nizan e Jean-Paul Sartre.
Simone de Beauvoir abominava o casamento, preferia o trabalho à maternidade e recusava qualquer privilégio que viesse untado do decantado (para ela, abjeto) “eterno feminino”.
Em 1943, abandonou o magistério ao publicar o primeiro romance, “A convidada”, uma história indigesta, mesmo para liberais bem-pensantes. De 1937 até 1980, viveu com Jean-Paul Sartre um casamento sem matrimônio, sem obrigação de fidelidade conjugal, sem ao menos morarem na mesma casa. Juntos, porém, enfrentaram corajosamente o domínio da França pelos nazistas e colaboracionistas.
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre fizeram longa visita ao Brasil em 1960. Chegaram ao Rio de Janeiro em 11 de agosto e permaneceram no País por mais de dois meses. Vieram a convite de Jorge Amado e Zélia Gattai, que conheceram o casal na França, anos antes, em encontros do Partido Comunista Francês.
Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre realizaram uma série de palestras e conferências em mais de 10 cidades por onde passaram. De acordo com Antonio Olinto, em sua coluna publicada no Globo em 31 de agosto de 1960, “As conferências que os dois pronunciaram no Rio de Janeiro obtiveram grande êxito. A presença de jovens (principalmente de alunos de faculdades de Filosofia) foi a marca dessas conferências. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre visitarão, ainda, Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Ouro Preto, Congonhas, Brasília, Fortaleza, Belém e Manaus”.
No Rio de Janeiro, eles chegaram a ser fotografados andando na antiga calçada da orla da Praia de Copacabana. Já na passagem por Brasília, o casal teve encontro com o presidente Juscelino Kubitschek em 22 de setembro de 1960. Na capital, que acabara de se transferir do Rio de Janeiro, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre conversaram sobre o futuro e o desenvolvimento do Brasil.
Enquanto esteve no País, Simone de Beauvoir representou o movimento feminista. Seu pensamento a respeito de gênero desenvolveu-se a partir da condição da mulher e suas ideias têm influência da teoria existencialista de Jean-Paul Sartre.
Sua estada em diversas regiões no Brasil resultou em um diário em que a escritora registrou suas impressões sobre as cidades brasileiras, os costumes, as misérias e os preconceitos contra a mulher. Esses relatos fazem parte do livro Sob o signo da história, publicado em português em 1965.
Simone de Beauvoir faleceu de pneumonia aos 78 anos, em 14 de abril de 1986, em Paris na França.