Tietê, terra dos apelidos


Por Euclydes Camargo Madeira

O NOSSO LINGUAJAR – A língua, como dizia o saudoso Tito Lívio Ferreira, revela uma certa estrutura mental dos seus usuários, e suas categorias espirituais e processos de expressão evidentemente não são imaginários.
Eis porque historiadores, nas suas línguas, escreveram suas histórias para que se conhecessem bem a sua terra e sua gente. Assim foi Heródoto escrevendo a sua história em grego; Tito Lívio, em latim; Dante Alighiere, criando a língua italiana, em sua obra-prima, a Commedia, considerada o maior poema épico do Cristianismo, merecendo posteriormente a qualificação de divina; Luís de Camões, na história e na língua portuguesa em “Os Lusíadas”.
Mas o nosso linguajar, o erre brando dos tieteenses e de arredores? E a nossa nítida dificuldade de pronunciar o ele final (paper, sinar), bem como o que sucede também em outras regiões do País, com a supressão do erre final (pará, fazê)?
Este fenômeno vocabular é explicado com fatos históricos, sociológicos e linguisticamente. Nesta nossa região, quando bandeirantes invadiam terras atacando tribos indígenas e cativando-as para mão de obra de suas conquistas, sentiram a necessidade de se entrosar em sua linguagem para domesticá-los e utilizá-los. E a língua indígena é desprovida de eles, abundam sim os erres brandos e seus termos: ara (com diversas significações), araçá, aracaju, Araçatuba e outros.
Após estas conquistas e com a descoberta do ouro, em Cuiabá, esses bandeirantes voltaram suas vistas para essa nova terra e, pelos Rios Tietê, Paraná, Pardo e outros, foram deixando nestas redondezas companheiros que ergueram povoações, já com esse linguajar do erre brando assimilado dos aborígenes, pelo fenômeno de rotacismo, a troca de L pelo R, pronúncia que até hoje perdura.
Mais tarde, com a convivência com africanos, houve outro fenômeno linguístico: a dificuldade de se pronunciar corretamente os eles intermediários e finais. Assim, falamos naturalmente: iguar, paper, fuzir…
Portanto, nós, tieteenses, cuidado com os piur, piur dos pintinhos. Na verdade, este nosso linguajar não vai mudar tão cedo e, talvez, jamais mude.