Cornélio Pires: 90 anos de música caipira e sertaneja no Brasil


Por Pedro Massa

A música caipira e sertaneja no Brasil está em festa! Neste ano, comemoram-se os 90 anos da gravação de “Jorginho do Sertão”, primeira moda de viola gravada no Brasil, em 1929, pela dupla piracicabana Mariano & Caçula e lançada no mesmo ano na famosa coleção de discos da “Turma Caipira de Cornélio Pires”. Evento é um marco não só junto ao cenário musical brasileiro, mas também na história da indústria do disco no País.
Em 1929, Cornélio Pires era uma das figuras famosas do Brasil. Conhecido e respeitado no meio jornalístico, era correspondente dos maiores e mais importantes jornais de circulação de São Paulo e do Rio de Janeiro. Naquela década também tinha alcançado enorme sucesso como escritor com a publicação dos livros “As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bentinho” e o “Almanaque O Saci”, tornando-se o autor que mais vendeu livros nos anos de 1920.
Apesar dos altos valores, os ingressos das suas apresentações e conferências caipiras eram disputadíssimos. Na plateia, sempre havia um figurão da política ou do cenário artístico nacional. Foi nessa época que Cornélio Pires sentiu uma invasão forte de culturas estrangeiras no País. Tanto que ficava incomodado com a influência dos vocábulos norte-americanos na nossa língua, como sanduíche, coquetel, rush, entre outros. Porém, o que mais lhe incomodava era a nítida falta de material nacional nas rádios e a avalanche de músicas internacionais tocadas pelos discjockeys.
Cornélio Pires resolveu, então, levar suas apresentações para o disco e, assim, gravar seu repertório de piadas e anedotas sobre o caipira e as duplas com suas modas de violas. Na época, procurou uma gravadora e apresentou seu projeto de gravação dos discos da Turma Caipira para Alberto Byington Jr., dono da Columbia, que não se interessou em lançar o conteúdo, dizendo que os caipiras não venderiam nem teriam sucesso e que, além disso, o processo de gravação seria muito caro para uma aposta sem credibilidade e retorno financeiro.
Insistente, Cornélio Pires se ofereceu para bancar as custas da produção do próprio bolso e, logo de início, encomendou 30 mil cópias divididas em seis séries de cinco mil discos cada, considerado número absurdo para a época. O dono da gravadora disse para Cornélio Pires que ele era louco e que não havia no Brasil tantos aparelhos para tocar aqueles discos. Estava inaugurado, assim, o mercado da música independente no País com a “Turma Caipira de Cornélio Pires”.
Em menos de 30 dias e em viagem ao Oeste do Estado, Cornélio Pires vendeu todos os seus discos. Seu projeto foi um sucesso e suas músicas e anedotas invadiram as principais rádios do Brasil. Entre 1929 e 1930, 53 discos, em um total de 106 fonogramas com causos, piadas, imitações e muita moda de viola, foram lançados. A coleção total teve tiragem aproximada de 350 mil cópias, número recorde na história do disco e no mercado fonográfico no Brasil, que só foi quebrado a pouco tempo, no fim dos anos de 1980.
A atitude de Cornélio Pires, naquela época, não se limita apenas em render a ele o mérito de primeiro produtor independente de discos no País, lhe garante também o título de pioneiro na criação de um novo mercado dentro da música popular brasileira, o mercado sertanejo, mercado esse que, de 1929 até hoje, sobe em reta de sucesso ascendente.
Estilo musical algum perpetuou tanto na nossa história musical e no inconsciente coletivo como a música sertaneja. Prova disso é que, 90 anos depois, o estilo é a fatia que mais fatura hoje dentro do universo musical no Brasil, independente da qualidade atual e aberrações fabricadas pela mídia.
Por conta de Cornélio Pires, a música sertaneja no Brasil carrega em seu DNA “cromossomos” tieteenses, ou melhor, “como somos”. Como somos tieteenses, como somos caipiras, como somos Brasil!
É por isso que o pai da música caipira e sertaneja no Brasil merece ser lembrado e reverenciado em todas as gerações. E para comemorarmos essa data tão importante, o Instituto Cultural “Cornélio Pires” programou 10 apresentações do show “Pedro Massa e a Turma Caipira de Cornélio Pires” para este segundo semestre e o primeiro semestre de 2020 em parceria com a Secretaria do Estado da Cultura e o Governo de São Paulo.
De maneira cronológica, o repertório conta a história da música sertaneja no Brasil, passando por compositores como Cornélio Pires, Raul Torres, Tonico & Tinoco, Teddy Vieira, Mario Zan, Renato Teixeira e Almir Sater. O show também apresenta a história da viola e suas variantes na música popular brasileira. As cidades contempladas para receber o projeto são Botucatu, Piracicaba, Cerquilho, Tatuí Sorocaba e São Paulo e as apresentações ocorrerão em teatros, oficinas culturais e Sesc.
Pelas redes sociais, no mês de agosto está previsto o lançamento do clip comemorativo dos 90 anos da gravação de “Jorginho do Sertão”, interpretada pelos tieteenses Pedro Massa e Fábio Tomazela. As filmagens desse clip serão realizadas no Museu “Cornélio Pires”, no Parque Ecológico, em Tietê.
Vale reforçar que Cornélio Pires nasceu em Tietê, em 13 de julho de 1884. Foi jornalista, humorista, compositor, produtor, diretor, publicou 23 livros, dirigiu e produziu dois filmes e gravou 56 discos. Faleceu em 17 de fevereiro de 1958 e foi enterrado no Cemitério Municipal de Tietê.
Neste sábado, 13 de julho de 2019, Dia Mundial do Rock, o pai da música sertaneja estaria completando 135 anos. Parabéns, Cornélio Pires! Gratidão por tudo!