Em Tietê, peixe era pescado à espingarda


Por Laureine Foltram Valentim Milanez

Em prosseguimento às histórias de pescadores de Tietê, nesta edição, trago os relatos de Geraldo Floriam Piva, de 74 anos, que, junto do seu pai Antônio Piva, pescava para vender.
Geraldo costumava acompanhar seu pai Antônio nas pescarias e lembrou-se de um fato interessante. Nas vezes que os dois estavam em pescaria de bote pelo Rio Tietê e, se porventura, o tempo mudasse para chuva, mais que depressa seu pai improvisava uma cobertura na barranca do rio para não ficarem molhados.
Com muita força, Antônio pegava o bote e virava a embarcação; eles entravam embaixo e esperavam a chuva passar. Um dia, dormindo embaixo do bote, não percebeu uma cobra cascavel debaixo do braço. O pai, imediatamente, agiu com rapidez ao puxar a cobra com um pedaço de pau. Assim, Geraldo acordou ligeiramente e, com uma bordoada, seu pai matou a cobra.
Geraldo também lembrou que, certa vez, à noite, na Cachoeira do Garcia, presenciaram uma luz vindo de frente para o barco. Ficaram assustados, mas seguiram. Ao chegarem perto, viram que se tratava de outro bote que, do nada, teve essa luz apagada.
Para a surpresa de Geraldo e Antonio, dentro daquele barco não tinha ninguém. Então, passado o medo, pegaram esse bote, o amarraram bem forte na barranca do rio e lá a embarcação permaneceu por uns 15 dias. Certa vez, quando retornaram ao local, o bote não estava mais na ribanceira. Este episódio foi um mistério!
Antônio pescava dia sim, dia não. Entrava no barco logo pela manhã e só voltava às 18 horas. Às vezes, chegava a passar a noite na pescaria. Voltava no outro dia, mesmo sabendo que corria o risco de não pegar nenhum peixe.
Já no bairro Gavetão, a pescaria era certa! Quando voltava de lá, trazia duas cestas grandes cheias de peixes fresquinhos e saía vender pelos bairros. Tinha freguesia certa, aquela que esperava pelos pescado. Uns compravam e marcavam em caderneta; outros pagavam no outro dia. O peixe, fresco, saboroso e barato, era a melhor mistura.
No Areião, a pescaria era diferente! Pegava-se peixe de espingarda. Primeiro subia na árvore e escolhia um lugar de boa visão. Lá de cima, visualizava-se os peixes, de tão limpa que era a água. Então, ficava-se em silêncio à espera de um peixe aparecer. De repente, aparecia jaú, pintado ou dourado. Mirava-se bem e, em um tiro certeiro, acertava o peixe. Depois que tirava a espécie da água, precisava vir uma carroça da cidade para buscar o “baita peixe”, de tão grande e pesado que era.