Pescaria, amigos e os tipos de peixes


Por Laureine Foltram Valentim Milanez

Nesta edição, a pedido de Hélio Gardenal, dou sequência às histórias de pescadores do Rio Tietê, com objetivo de prestar homenagem.
Relatos do pescador Jair Ribeiro informaram que a água do Rio Tietê era doce e tinha muito peixe, tanto que ele chegou a pegar dourado e piava. Embaixo da caixa da bomba, que retirava água do Rio Tietê para o consumo da população, tinha um córrego que, nas enchentes, subiam muitos peixes, inclusive, pintados.
Sua mãe, Benedita Pexera, na boca da Pedreira, chegou a pescar com uma linha de aço número 22 e pegou um dourado de 30 a 35 quilos.
Nas lembranças de Jair Ribeiro, também vêm outros pescadores dos bons, como Luiz Fré, família Vieira e o Juca Pinga, que chegou a pegar pintado bem na curva do Bojuí.
Juca Pinga era tão bom que, ao abeirar as águas, já enxergava o peixe a dois metros no fundo do rio. Neste local, também tinha um banco de areia e Juca Pinga pescou um pintado de 120 quilos, maior peixe que ele já havia visto.
Outro lugar bom para pescaria era no Poço do Curuçá. Na época, só o pescador apelidado por Bem usava um barco a motor, enquanto os outros iam com barco a remo. Para pescar, usavam tripa de frango como isca e chegaram a pegar mandiuva de dois a três quilos. Já o peixe curimbatá era forte dentro das águas. Tinha que fazer muita força para tirá-lo do rio. O maior pescador de piava era Orsine Alves Correia de Toledo.
Já a família Vieira levantava de madrugada e, para a pescaria, usava uma grande vara com linha de aço, que era tirada de pneu, para ficar bem forte, porque os peixes eram muito grandes e bem pesados.
O patriarca dessa família gostava de pescar onde era a boca do lixo. Descia a avenida Fernando Costa (Beira-Rio) até chegar ao lugar onde tinham dois tijolos, um do lado do outro. Sentava, jogava a linha de aço na água e pegava piavão ou piavuçu, pintado e piava com três pintas, de seis a sete quilos. Em noite de lua cheia, chegava a pescar jurupoca de até 6,5 quilos.
Quando a noite era escura, para iluminar a pescaria, era usado lampião de carbureto. O refletor era de farol de fusca pela necessidade de uma claridade intensa. Por outro lado, Jair Ribeiro conta que tomava muita ferroada de mandiuva. Era algo muito dolorido e, para curar a ferroada, não havia remédio. Ele tinha o costume de urinar em cima da ferroada para a dor diminuir.
Jair Ribeiro chegou a pegar piranha de até dois quilos. Quando pegava na rede ou mesmo na vara, tinha que tomar cuidado porque a espécie mordia o que estivesse na frente. Tinha força agressiva nas mandíbulas e seus dentes tiravam pedaço de carne. Caso tomasse mordida dessa, a recomendação era fazer um copinho com a mão, enchê-lo de urina, colocar barro e misturar para, depois, por sobre a mordida e segurar firme. Em seguida, amarrava o ferimento com um pedaço de pano da barra da saia da mãe. No outro dia, o local já estava cicatrizado e ele pronto para outra pescaria.
Em 1966, com dor no coração, Jair Ribeiro abandonou a pescaria. Foi a última vez que desceu à beira do Rio Tietê, que estava coberto de peixes mortos pelo contato com o restilo. Aquilo foi a “morte” e o fim das pescarias.
Triste, Jair Ribeiro seguiu para São Paulo, carregando dentro do peito muito ódio por ter que deixar sua terra e o Rio Tietê com uma mancha negra causada pela crueldade humana, determinando para a cidade a morte dos peixes.
“Depois dessa desgraça que aconteceu com o Rio Tietê, fiquei com uma marca emocional muito forte na minha memória, tão triste que nunca mais desci até à margem do Tietê”, desabafou Jair Ribeiro.