Saiba quem foi coronel João Maria de Carvalho


Nesta edição, o Nossa Folha prossegue com a série de reportagens sobre a vida de líderes de movimentos culturais, sociais e políticos

Última biografia sobre líderes de movimentos culturais, sociais e políticos do Brasil publicada pelo Nossa Folha foi a de José Gomes de Oliveira (Zé Filipe), pai de Maria Bonita.
Nesta edição, é a vez de João Maria de Carvalho, baiano nascido em 24 de janeiro de 1890 no povoado de Vila Serra Negra (atual cidade de Pedro Alexandre). Filho de Pedro Alexandre de Carvalho e Guilhermina Maria da Conceição, tendo mais de 13 irmãos, possui uma história singular na saga dos grandes sertanejos. Antes de se tornar tenente e coronel nordestino e ser dono e rei de um mundo, João Maria foi um lutador nos muitos ofícios, desde o tangimento de gado ao comércio.
Do seu tino de comerciante, eis que um dia, lá pelos fins dos anos de 1920, fincou pé nas bandas de Santa Brígida, então distrito de Jeremoabo, não distante de Serra Negra. Ali passou a comercializar tecidos, chinelos e outros produtos de uso pessoal e do lar. Neste mesmo local, João Maria, moço garboso já tinha passado dos 30 anos e ostentando o poder de sedução, lançou o olhar sobre uma sertaneja que lhe pareceu de atração diferenciada. Naqueles sertões de mulheres tímidas e recatadas, um olhar mais penetrante logo despertava verdadeiro desejo.
Segundo se conta, teria surgido, naquela ocasião, um romance ardoroso e sigiloso entre João Maria e Maria Gomes de Oliveira (Maria de Déa ou Santinha), a famosa Maria Bonita, fato negado por familiares até hoje. Ainda segundo historiados, João Maria era o inverso do sapateiro José Miguel da Silva, Zé de Neném, então marido de Maria de Déa. João Maria era explosivo, ardente, carinhoso, arrojado e deixava a moça sertaneja na mais completa felicidade. Conta-se, ainda, que o ardor dos encontros proibidos fez com que Maria Bonita, cada vez mais, se afastasse do marido. Até que a jovem sertaneja conheceu Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião – o Rei do Cangaço, e passou a ser a deusa e rainha do cangaço.
Ao se tornar tenente de patente militar, porém coronel hierarquizado pelo poder econômico e político, João Maria soube confluir para si forças antagonistas e transformá-las em um poder pessoal enorme, que o fez reconhecido, respeitado e temido pelo sertão.
Sua extraordinária capacidade de dialogar com situações opostas e de tudo tirar proveito, o colocaria também como magistral estrategista. Basta citar o exemplo da sua opção por dar guarida a perseguidos pela polícia, injustiçados e cangaceiros, enquanto seu irmão, o tenente-coronel Liberato de Carvalho, comandante da força baiana, esteve por muito tempo pelos sertões alagoanos, sergipanos e baianos no encalço de pessoas por ele protegidas.
Enquanto o tenente-coronel Liberato de Carvalho queria prender, o coronel João Maria procurava proteger da prisão porque sabia que, acolhendo o homem da terra, por este seria reconhecido e o seu prestígio se tornaria incontestável. E assim de fato ocorreu! Por isso, não mostrava receio em dar abrigo nas suas vastas terras até mesmo àqueles chegados de outros Estados, principalmente de Sergipe. Tanto que acolheu o cangaço como uma causa justa e abrigou sertanejos perseguidos porque se via como grande pai e protetor dos oprimidos.
Do mesmo modo, não se limitou a ser dono de fazendas e rebanhos ou a comandar o mundo ao redor a partir dos sombreados de sua varanda em Serra Negra. Foi além e agiu, de forma forte e impositiva, na vida política, econômica e social, até mesmo em outros Estados, principalmente em Sergipe e Alagoas.
Ao acolher os enviados por amigos políticos ou aqueles de reconhecida periculosidade, expandiu sua influência, além das fronteiras. Não era incomum se ouvir dizer que este ou aquele candidato era apoiado pelo coronel João Maria da Serra Negra. Bastava tal fato para que o pleiteante ganhasse força e prestígio.
Do mesmo modo, as lideranças políticas sertanejas tudo faziam para não contrariar o poderoso da região. No entanto, o próprio Governo Estadual sentia de tal modo a influência do coronel baiano que lançava todas suas forças contra o candidato por ele apoiado. Na época, seu olhar mirava principalmente em direção a Canindé, Poço Redondo, Nossa Senhora da Glória e Ribeirópolis. Nesta, no antigo Saco do Ribeiro, o filho de Pedro Alexandre foi amado e odiado, desejado e temido, chamado e evitado.
Vale registrar que o coronel João Maria foi casado com Flora Santos, herdeira de uma família conhecida como “Ceará”, que chegou à região sergipana em 1877, em Cruz do Cavalcante (atual Cruz das Graças) e tornou-se um clã representado pelos Santos. Diante da forte influência econômica e política na região, chegaram a Ribeirópolis. Ao contrair matrimônio com Flora, integrante da segunda geração dos Ceará, coronel João Maria, o moço de Serra Negra, logo estreitou vínculos com Sergipe e Ribeirópolis, vez que, naquela época, a família já residia nesta povoação.
Acusada de desavenças políticas e de supostos crimes, a família Ceará recebeu refúgio do coronel João Maria no então Serra Negra. Para não ter seu poderio fraquejado, na ocasião, necessitou da influência do irmão, o general Liberato de Carvalho. Mas nem por isso o coronel perdeu a maestria, domínio e autoridade, além da influência política.
Coronel João Maria faleceu em 9 de agosto de 1963 aos 73 anos.