Saiba quem foi José Ribeiro Filho, o Zé Sereno


Nesta edição, o Nossa Folha prossegue com a série de reportagens sobre a vida de líderes de movimentos culturais, sociais e políticos

Última biografia sobre líderes de movimentos culturais, sociais e políticos do Brasil publicada pelo jornal Nossa Folha foi a de Sérgia Ribeiro da Silva, mais conhecida como Dadá.
Nesta edição, é a vez de José Ribeiro Filho (Zé Sereno), que nasceu em 22 de agosto de 1913 na Fazenda dos Engrácias, em Chorrochó, no Estado da Bahia.
Filho de José Ribeiro dos Santos e Lídia Maria da Trindade, pertenceu ao grupo de cangaceiros do capitão Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido por Lampião, o Rei do Cangaço. Sua mãe (dona Lídia) era irmã dos cangaceiros Antônio e Cirylo de Engrácia (Ingrácia) e também do afamado Faustino Mão-de-Onça, pai do cangaceiro Zé Baiano.
Aos 17 anos, José Ribeiro Filho ganhou o apelido de Zé Sereno por causa de seu temperamento, aparentemente, calmo. Para ingressar no bando de Lampião, grupo de maior duração e organização na história do cangaço, teve que passar por um teste: lutar com Volta Seca. Desde então, nutria grande respeito (quase que religioso) por Lampião. Tanto que, até quando esteve vivo, dizia que o Rei do Cangaço, além de corajoso, ajudava os pobres, gostava das coisas justas e só respeitava quem merecia respeito.
Zé Sereno, como era chefe de um dos subgrupos de Lampião, além de matar, ordenava aos seus comandados que, antes de exterminar qualquer indivíduo marcado para morrer, podia praticar toda e qualquer crueldade. Isso aconteceu com o coiteiro Zé Vaqueiro que, vendo o cangaceiro Novo Tempo em estado grave após o combate com uma volante do coronel Zé Rufino e temendo que descobrissem que ele acobertara esse cangaceiro, resolveu liquidá-lo com tiro no ouvido.
Apesar da crueldade, o cangaceiro Novo Tempo conseguiu sobreviver e fugiu de imediato do local. Enquanto isso, o coiteiro Zé Vaqueiro foi até sua casa, fez uma cova, porém, ao retornar ao local do crime, não encontrou Novo Tempo que, por sua vez, localizou o bando de Zé Sereno e contou a ele o que o coiteiro havia lhe feito.
A partir daí, Zé Sereno ordenou a vingança e, sem perdão nem piedade, Juriti, Sabiá, Mergulhão e Marinheiro foram ao encontro de Zé Vaqueiro e o localizaram. Capturado, foi obrigado a cortar xique-xique e mandacarus e, depois, acabou amarrado e despido para receber chicotadas e pontapés e, assim, ser jogado sobre os espinhos da vegetação incendiada para ele morrer aos poucos.
Ao escolher a bela jovem sertaneja, natural de Poço Redondo, em Sergipe, Hermecília Brás São Mateus (a Ilda Ribeiro de Souza – Sila – 13 anos) como sua companheira, Zé Sereno trouxe às hostes do cangaço uma das mais belas mulheres a fazer parte da lida cangaceira de todos os tempos. Como normalmente acontecia, Sila foi retirada do convívio familiar e, mesmo contra sua vontade, seguiu ao lado do seu companheiro durante e após o cangaço.
Zé Sereno e Sila foram alguns dos poucos cangaceiros do bando de Lampião que sobreviveram ao ataque da Força Policial Volante de Alagoas, sob comando de João Bezerra, em 28 de julho de 1938, na Grota do Angico, interior de Sergipe. Na ocasião desse massacre, foram mortos e decapitados Lampião, Maria Déa (Maria Bonita), nove cangaceiros e um soldado da força alagoana.
Pouco tempo depois do ocorrido e após escapar dos soldados Euclides Marques e Adriano Ferreira de Andrade, o casal, que havia entregue o primeiro filho (ainda bebê) para a família de Galdino Leite, entregou-se às autoridades e, por decreto do presidente Getúlio Vargas no fim da ditadura do Estado Novo, acabou anistiado e conquistou a sonhada liberdade.
Diante das incertezas e dificuldades, Zé Sereno e Sila resolveram deixar o Nordeste e seguiram em direção à região Sudeste do Brasil. Foi uma viagem longa e cansativa, repleta de paradas, até chegar ao Estado de Minas Gerais. Ali, permaneceram até decidirem seguir para o Estado de São Paulo para recomeçarem suas vidas, longe do cangaço.
Na capital paulista, por serem sertanejos nordestinos, Zé Sereno e Sila sofreram nas mãos dos paulistanos da periferia, mas, ainda assim, criaram três filhos e terminaram seus dias de vida como trabalhadores e em nada lembravam a época em que, sob as ordens de Lampião, rumavam pelo Sertão em uma vida à margem da lei.
Em São Paulo, por segurança, Zé Sereno nunca revelou a ninguém que pertenceu ao bando de Lampião. Ali, trabalhou como ambulante, vendedor de peixe, operador de fábrica, zelador em um colégio e, depois, em um frigorífico. Como católico fervoroso, passou a organizar romarias para Aparecida.
Zé Sereno faleceu em 16 de fevereiro de 1981 no Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo, aos 67 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC) hemorrágico. Foi sepultado no Cemitério da Paz, no Jardim Vazani, em São Paulo.
Deixou a esposa Sila e os filhos Ivo, o mais velho e dono de uma imobiliária; o caçula Wilson, fotógrafo, cinegrafista do Instituto Oceanográfico da USP e cabo na Aeronáutica; e Gilaene (Gila), funcionária de uma grande empresa.