Saiba quem foi o soldado Sebastião Vieira Sandes


Nesta edição, o Nossa Folha prossegue com a série de reportagens sobre a vida de líderes de movimentos culturais, sociais e políticos

Última biografia sobre líderes de movimentos culturais, sociais e políticos do Brasil publicada pelo jornal Nossa Folha foi a do tenente João Bezerra da Silva.
Nesta edição, é a vez de Sebastião Vieira Sandes (Santo), que nasceu em Água Branca, Alagoas, em 1916, da união de Joaquim Vieira Sandes e Maria Joaquina Sandes.
Ainda jovem, Santo esteve na fazenda Riacho Seco, de propriedade do seu tio Antônio Zezé, pouco depois da passagem de Virgulino Ferreira da Silva (o Lampião). Na ocasião, sua tia Maria revelou que o Rei do Cangaço, depois de um café ligeiro na propriedade, tinha levado seu marido como guia.
Assim, como estava “aberta” a porteira para uma amizade, Santo passou a frequentar o acampamento de Lampião para acertos de trabalho como coiteiro. Entre suas funções, estava a de tratar do envio de cartas de cobranças, a compra de bens e, principalmente, para a confecção de peças de couro, ofício que Santo era perito, chegando a confeccionar carteira de boiadeiro, correia de cantil, testeira e barbicacho para chapéu, além de bandoleira para sustentar o fuzil a tiracolo, coldre de pistola, bainha de faca, relho e todos os enfeites de vaqueta de cores variadas, na época.
Com livre acesso ao acampamento do Rei do Cangaço, além de coiteiro fino por conta de efetuar viagens na busca de remédios, perfume francês e de uísque escocês para Lampião, o que fez viver muito próximo do líder do cangaço e, consequentemente, de Maria Gomes de Oliveira, a Maria de Déa (hoje, Maria Bonita), Santo, na época, era tido como afilhado pelo casal que o chamava por Galeguinho.
Santo também foi o responsável pelos bailes perfumados, que tinham em seu cardápio comida à base de boi e bode, e serviam para anunciar a partida do bando na manhã seguinte aos encontros. Também era de Santo a missão de convidar as famílias próximas ao acampamento dos cangaceiros para a festa noturna em nome de Lampião.
Nesta época, Santo tinha uma noiva de nome Santinha, irmã da cangaceira Jovina Maria da Conceição Souto, pseudônimo de Durvalina Gomes de Sá (Durvinha).
Assim, o jovem Santo percorreu o caminho das águas do Rio São Francisco nas missões que o levavam aos destinos solicitados por Lampião, mas sempre vistoriado pelos militares. Até que, em 1937, o sobrinho-neto de Joana Vieira Sandes, a Baronesa de Água Branca, poderosa e temida, mesmo depois da morte do barão Joaquim de Siqueira Torres, seu marido, acabou preso.
Vale lembrar que, em junho de 1922, Lampião e mais 30 homens invadiram a casa da baronesa, levando joias, roupas, 30 contos de réis, perfume, ouro, cabras leiteiras e, de quebra, um cordão de ouro de três metros de comprimento, sendo que essa última relíquia nunca fora vista com o Rei do Cangaço.
De coiteiro consumado, Santo passou a soldado exemplar, honrando o compromisso que assumira com o tenente-coronel José Lucena e com o político José Torres, da fazenda São Bento. Com poucos dias, “nascia” ali o soldado 954, alistado como voluntário e incluído no estado efetivo do Regimento da 5ª Companhia do II Batalhão. Nos documentos do seu recrutamento, Santo aparece como um rapaz de cor branca, 1,69m de altura, solteiro, cabelos escuros e lisos, alfabetizado e de profissão agricultor.
Normalmente, os coiteiros capturados acabavam mortos pelos militares, mas, no caso de Santo, um fazendeiro interviu na situação e, para permanecer vivo, o ex-coiteiro viu-se obrigado a ajudar a Força Volante. Assim, naquele momento como soldado, foi intimado a apontar o líder dos cangaceiros ao aspirante Pedro de Cândido, pois era integrante da tropa do tenente João Bezerra e guarda-costa de Francisco Ferreira de Mello, um dos encarregados pelo cerco.
Dessa forma, o exímio artesão e bordador e ex-parceiro de Lampião e Maria Bonita no artesanato de couro, em Água Branca, Alagoas, tornou-se o algoz real daquele 28 de julho de 1938, que teve como objetivo cumprir a ordem do presidente Getúlio Vargas.
Segundo contou o próprio soldado Santo, anos mais tarde, ao historiador Frederico Pernambucano de Mello, uma das maiores autoridades em assuntos de cangaço, Lampião não morreu aos 40 anos em combate naquela madrugada fria e chuvosa, conforme noticiado. Aquele que liderou o Cangaço por mais de 20 anos pelo interior do Nordeste e, desde então, se transformou em um dos símbolos mais emblemáticos dessa história, na verdade, fora atingido por um único tiro de fuzil, capaz de derrubar aquele que acreditava ter corpo fechado e ser protegido por entidades sobrenaturais. Ao esperar ser atacado por terra e não pelo rio, Lampião foi surpreendido por um tiro certeiro, na altura do umbigo, suficiente para tirar sua vida.
Como mandava a tradição militar vigente na época, apenas aquele que matava tinha o direito à degola da sua vítima. Cumprindo a regra, em lágrimas, o soldado Santo cortou a cabeça daquele que, um dia, tinha sido seu parceiro de agulha e linha.
Desde o fato, o algoz real se manteve em silêncio para evitar represálias e a façanha só foi revelada recentemente. Tanto que, em 1968, o soldado Antonio Honorato da Silva (Noratinho) apareceu morto após tomar para si a autoria da morte do Rei do Cangaço em uma matéria da revista Fatos & Fotos.
Segundo o próprio soldado Santo contou, naquela madrugada de 28 de julho de 1938, ele tinha 22 anos e, sob ordens, subiu ao cume da Grota de Angico, em Poço Redondo, sertão de Sergipe, de onde desferiu um único tiro, que atingiu Lampião.
Isso foi, posteriormente, comprovado pela perícia do Instituto Nacional de Criminalística e pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello que, como biógrafo de Lampião, a partir de 1970, começou a esclarecer o mistério que envolvia a morte de Lampião. Na época, o historiador recebeu informação do coronel Audálio Tenório de Albuquerque que dizia que o coronel José Lucena de Albuquerque Maranhão (responsável intelectual pela morte do Rei do Cangaço, já que comandava o batalhão encarregado da caça a Lampião em Angicos) que o verdadeiro assassino era um dos guarda-costas do aspirante Francisco Ferreira de Mello, mas não Honorato, como divulgado.
Assim, o historiador conseguiu encontrar o soldado Santo e, durante muito tempo, tentou, em vão, arrancar -lhe declarações. Só no fim de 2003, quando se descobriu portador de um aneurisma inoperável, considerado doença terminal, Santo procurou o biógrafo e decidiu que havia segredos que ele não queria levar para o túmulo. Na ocasião, revelou que Lampião foi executado por ele mesmo, com um único tiro, de cima para baixo, enquanto o Rei do Cangaço tomava uma caneca de café.
Depois dos combates do período do cangaço, o soldado Santo foi viver em Maceió e, em seguida, residiu em São Paulo, onde morreu em 4 de janeiro de 2004.