Saiba quem foi Sérgia Ribeiro da Silva (Dadá)


Nesta edição, o Nossa Folha prossegue com a série de reportagens sobre a vida de líderes de movimentos culturais, sociais e políticos

Última biografia sobre líderes de movimentos culturais, sociais e políticos do Brasil publicada pelo jornal Nossa Folha foi a de José Osório de Farias (tenente Zé Rufino). Nesta edição, é a vez de Sérgia Ribeiro da Silva, mais conhecida como Dadá, que nasceu em 25 de abril de 1915 e viveu seus primeiros anos de vida em Belém do São Francisco, em Pernambuco, até se mudar com a família para a Bahia.
Aos 13 anos, acabou raptada por Cristino Gomes da Silva Cleto, o cangaceiro Corisco ou Diabo Loiro, braço direito de Virgulino Ferreira da Silva (Lampião), rei do cangaço, que espalhou terror em sete Estados do Nordeste: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia.
Segundo contava a própria Dadá, o rapto foi uma vingança contra seu pai, acusado de delatar um parente de Corisco à polícia. Na época, Dadá teria ficado muito doente após sofrer violência sexual e não foi a única vítima da brutalidade na família.
No documentário Feminino Cangaço, Dadá contou que, antes do rapto, os irmãos menores tiveram as pontas dos dedos cortadas à faca, seu pai foi espancado e teve uma orelha cortada e a mãe e as irmãs ficaram cinco dias presas sem comida e água.
Depois que Lampião conheceu Maria Bonita, mulheres passaram a ser permitidas no cangaço. Uma vez no bando dos bandoleiros da caatinga, a mulher costurava, bordava, e cozinhava, se quisesse. Seu status era superior ao da mulher da cultura pastoril. Na verdade, a cangaceira vivia para se ornamentar e alegrar o cotidiano de dureza do seu homem, porém, exigia do marido joias, perfumes, brilhantinas, maquiagens, entre outros.
No entanto, Dadá era uma exceção não só na forma como entrou para o cangaço, mas também por não parecer ter caído nas tentações da riqueza vinda das pilhagens. Após “lua de mel” violenta nas caatingas baianas com Corisco e ao se acostumar com a nova vida, Dadá aprendeu com o companheiro a ler, escrever, fazer contas e atirar com destreza. Tinha boa pontaria, era valentona e a mão certeira no rifle era a mesma que fazia lindos bordados. Tanto que foi a estilista do Cangaço ao inovar os bornais com florais coloridos e colocar estrelas, signo de Salomão, moedas e fitas nos chapéus dos cangaceiros.
A partir da ascensão do presidente Getúlio Vargas e da atuação mais ativa das volantes em 28 de julho de 1938, na grota de Angico, em Sergipe, perto da divisa com Alagoas, o bando de Lampião foi cercado por uma força volante, comandada pelo tenente João Bezerra da Silva, pelo aspirante Ferreira Mello e pelo sargento Aniceto da Silva. Além de Lampião, foram mortos sua mulher, Maria Gomes de Oliveira (Maria Bonita), assim como os cangaceiros Alecrim, Colchete, Elétrico, Enedina, Luiz Pedro, Macela, Mergulhão, Moeda e Quinta-feira.
Justamente para fugir da perseguição policial, o grupo de Lampião havia se dividido. Corisco estava em Alagoas e, com a morte do chefe, assumiu a liderança. Sua primeira ação foi de vingança, pois havia recebido a informação de que quem tinha entregado Lampião fora certo José Ventura Domingos. Com convicção de estar vingando o bando, matou o dono da casa, a esposa e os filhos e degolou os cadáveres. Depois, colocou as cabeças dentro de um saco de estopa e enviou-as ao tenente João Bezerra, responsável pela destruição do grupo principal.
Só que a informação estava errada. Corisco matou uma família inocente. Com esse crime hediondo sobre seus ombros, sua vida passou a ser de fuga constante. Enfraquecido, o grupo nem sequer teve munição suficiente.
Em 1939, nova ascensão de Dadá na hierarquia do cangaço: Corisco foi baleado e tornou-se incapaz de liderar. É por isso que pesquisadores enquadram apenas Dadá como cangaceira, pois foi a única que, além de atirar em combate, comandou o grupo.
A liderança de Dadá durou pouco menos de um ano. Em meados de 1940, Corisco já havia cortado os cabelos longos e claros – que o deram também o apelido de Diabo Loiro – e vivia escondido com a mulher em uma fazenda em Barra do Mendes, na Bahia. Na ocasião, o casal acabou surpreendido por uma volante e Corisco, atingido por tiros de metralhadora no abdômen, morreu após agonizar por 10 horas.
Baleada, Dadá foi capturada e permaneceu presa por dois anos. Na época, as poucas condições de higiene da cadeia lhe custaram à amputação de uma perna. Sua realidade de inválida fez com que um advogado prático (rábula) pleiteasse com sucesso sua liberdade em 1942.
Durante os anos de cangaço, Dadá havia tido sete filhos, mas apenas três sobreviveram (Maria do Carmo, Maria Celeste e Sílvio Hermano) e foram entregues a outras famílias.
Após ser libertada, Dadá casou-se com o pintor de paredes Alcides Chagas e ganhou a vida como costureira na periferia de Salvador até sua morte por câncer, em 7 de fevereiro de 1994, aos 78 anos. Foi sepultada no Cemitério da Saudade com missa de corpo presente celebrada pelo padre Afonso Gomes.